03 março 2008

Apatia Urbana III

(Photo by C.J.)


Segue um pitaco de um dos livros mais poéticos que já li. A Poética do Espaço de Gaston Bachelard inaugura uma fenomenologia da imagem poética. Ao mesmo tempo que exerce do ofício de fenomenólogo, o texto de Bachelard não perde por uma página sua força poética.
Bello.

'(...) O número da rua, o algarismo do andar fixam a localização do nosso 'buraco convencional', mas nossa morada não tem espaço ao seu redor nem verticalidade em si mesmo. 'Sobre o chão as casas são fixadas com asfalto para não afundarem na terra' (Max Picard, La Fuite Devant Dieu). A casa não tem raízes. Coisa inamaginável para um sonhador de casa: os arranha-céus não têm porão. Da calçada ao teto, as peças se amontoam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios, na cidade, têm apenas uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já não há mérito em morar perto do céu. E o em casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta às diferentes peças de um abrigo acuado no pavimento um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores da intimidade.'
(A poética do espaço - Gaston Bachelard)



#música: I'll Build a Starway to Paradise (G. Gershwin)

16 dezembro 2007

Aos Porcos, as maçãs



"(...) As maçãs estavam amadurecendo e a grama do pomar cobria-se de frutas derrubadas pelo vento. Os bichos acharam que as frutas seriam distribuídas eqüitativamente; certo dia, porém, chegou a ordem para que todas as frutas caídas fossem recolhidas e levadas ao depósito das ferramentas para o consumo dos porcos. Alguns bichos murmuraram a respeito, mas foi inútil"
(A Revolução dos Bichos - George Orwell)

No país dos Uns Mais Iguais Que os Outros, vulgo Brasil, a coisa anda - há tempos - destrambelhada. Dia 12 de Dezembro foi publicado no Diário Oficial da União os vencedores dos prêmios literários de 2007, da Fundação Biblioteca Nacional. E lá estava, para quem tem paciência e estômago para ler os editais: Prêmio Sergio Buarque de Holanda, categoria Ensaio Social:

José Genoino - escolhas políticas, de Maria Francisca Pinheiro Coelho

Não tive ainda interesse algum em ler o laureado livro, mas em rápida busca por esse nosso Googlezão da vida, entendi que o livro é uma reconstrução da vida e carreira política do dito cujo, procurando notar sua a participação na vida política na "polis", no Congresso Nacional. Bom, esperamos que certamente essa participação na pólis compreenda a acusação do Procurador da República sobre o envolvimento no mensalão, não é?

Ou a nossa produção sociológica anda muuuito mal das pernas, ou o destrambelho apenas continua (ou seriam a mesma coisa?). Será que não houve nenhum ensaio social publicado melhor que esse durante todo o ano de 2007??

-"Isso não interessa camaradas! - disse o porco Garganta. O que interessa é que temos uma memorável biografia de um dos nossos grandes camaradas! - alguns bichos rosnaram, mas de nada adiantou."

(Ainda não procurei saber quem são os demais premiados, mas certamente haverá lá uns mais iguais que os outros.)


#música: Que Beleza (Tim Maia, Racional)

07 dezembro 2007

Mr. Banksy


Aprenda a intervir.



Banksy.
Aqui e aqui principalmente.

24 novembro 2007

(...)



Copiar uma tese é plágio. Copiar várias teses é pesquisa.

15 novembro 2007

Calvin

01 novembro 2007

(...)

Curitiba têm duas estações: inverno e a Rodoferroviária, na Av. Affonso Camargo.

28 outubro 2007

20 outubro 2007

Martin Claret e o Plágio

Algo soava estranho naquelas capas coloridas e chamativas dos livros da Martin Claret...



Quem seria Pietro Nassetti?


Em matéria de Outubro, o Jornal Opção traz reportagem sobre o plágio que a editora Martin Claret fez (e admitiu) da obra A República, de Platão, da edição da Fundação Calouste Gulbenkian, descoberta por um professor da UFGO.

" (...) professor Gonçalo Armijos Palácios, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Goiás. Ao confrontar a edição de A República da Fundação Calouste Gulbenkian (localizada em Lisboa, Portugal), celebrada pela qualidade e requinte, com a da Martin Claret, o doutor em filosofia, que sabe grego, ficou estupefato. As duas traduções eram idênticas. Ou melhor, só existia uma tradução, a da Fundação Calouste Gulbenkian. A Martin Claret é responsável por uma edição pirata (leia no box que o proprietário da editora admite a pirataria)"

Leia a matéria AQUI e AQUI.

14 outubro 2007

Baixas II

- Capitão, sinto informar... mas temos mais duas baixas, senhor.
- Não creio, mais duas! Diga logo soldado!
- Pavarotti, o italiano do Pelotão das Vozes. E Autran, o brasileiro do Pelotão dos Palcos.
- Céus, homens preciosos! ...Temamos essa bruxa solta e essas nuvens carregadas.. Mas felizes ficamos pelos feitos destes que se foram...
- Tens razão, senhor.



Luciano Pavarotti (1935-2007)



Paulo Autran (1922-2007)

08 outubro 2007

Metafisicando com Pessoa



Gostava


"Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafisica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel..."



#música: 'Dança da Fada Açucarada', suíte 3, O Quebra-Nozes (Tchaikovsky)

29 setembro 2007

À sombra das chuteiras imortais



Em tempos de tantas críticas à incompetência da arbitragem no futebol brasileiro, não percamos as esperanças. O juíz gatuno pode vir a ser o nosso autêntico autor trágico brasileiro! E nestes tempos arbitrários nebulosos, convém lembrar do Nelson, o Rodrigues:

"Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permitem, shakespeariana. O espetáculo deixa de se resolver em termos especificamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve, no time prejudicado e respectiva torcida, esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe, adormecido, no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue."
(trecho da coluna À sombra das chuteiras imortais)



#música: Ponta de lança africano(umbabarauma) (Jorge Ben)

24 setembro 2007

Momento



'O homem parou, cheio de dedos, para procurar os fósforos nos bolsos. A insidiosa frescura do mar lhe mandou um pensamento suicida. E veio um riso límpido e irresistível - em i, em a, em o - do fundo de um pátio de infância. Um riso... Senão quando o homem achou os fósforos e a vida recomeçou. Apressada, implacável, urgente. A vida é cheia de pacotes...'
(Mario Quintana- Sapato Florido)


#música: Jitterbug Boy (Tom. o Waits)

02 setembro 2007

Tom. o Waits.



Segue AQUI o link do clássico texto "A metafísica de botequim de Tom Waits", de Martim Vasquez.


'
(...) Se, para um Aristóteles todo homem busca conhecer e, para um Santo Tomás, todo homem deve unir a razão e a fé, para Tom Waits, todo homem fica feliz com um copo de bourbon, uma mulher com cabelos oxigenados e uma lata de feijões nos momentos em que a solidão bate fundo(...)'

#música: The Piano Has Been Drinkin (T. Waits)

26 agosto 2007

...



Um dia meus netos vão perguntar como eram as coisas no meu tempo e vou responder:

- Ah... eu sou do tempo em que Plutão era um planeta do sistema solar...

Efeito Madeleine



"(...) E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte igualmente sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine. Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa".
(M.Proust - No Caminho de Swann)

Desde cedo fui fã de Billie Holiday. E isso só aumentou quando soube da história do porquê ela passou a usar o arranjo na cabeça. Mas o fato é que, quando se é fã de Billie, e acaba por se conhecer Madeleine Peyroux, um mínimo assombro é inevitável. Porque Billie Holiday é Bilie Holiday. Mas Madeleine Peyroux é Madeleine Peyroux, é Billie Holiday, é um pouco de Peggy Lee, mais um pouco de Ella Fitzgerald, e canta em francês. Aliás, Billie falava francês?

Bom, mas justiça seja feita: Billie Holiday é Billie Holiday E ponto final! ...E Madeleine Peyroux é Madeleine Peyroux, é...

#música: La Vie en Rose (Madeleine Peyroux)

25 agosto 2007

(...)



(para Simone)


Põe-se a escrever...
e no escrever, cala;

felizes fossem os versos
que dos versos, não se despissem.

Mas inventaram o quê transcende,
e possível se fez
entrevistar poetas.

C.J. (2007)

21 agosto 2007

Tango y Pintura


Manhã fria em Buenos Aires. A garoa era fina como a linha que pendia as fotos do artista na entrada do Caminito. O carro velho e vermelho dos bombeiros voluntários, estacionado na frente da galeria de costura. Comprei um café numa lancheria e andei. Logo na esquina da Magallanes, o chapéu fungui branco de um senhor me dava bom-dia. Conversamos algo sobre o tempo, sobre lugares que eu havia conhecido e que, coincidentemente, ele, o artista, tinha shows marcados em Porto Alegre. Empaticamente, ele me convida a conhecer seu atêlie e algumas obras recentes.

Magallanes, 859. Conheci Guillermo Alio de ótimo humor. Quando cruzamos a curta travessa onde fica seu ateliê, logo me veio a lembrança que não tenho das vidas das rameiras e dos cafetões que inventaram o tango; do nu simbólico da comunicação da dança; e dos sulcos de desejo que afloram da pele dos dançarinos. Comentei algo disso com Guillermo. E don Guillermo falou como quem falava de sua maior e grande paixão: - 'Si mi caro... el tango es comunicación.. La piel de la parcera no se acosta solemente en su cuerpo... pero se amolda al lo prólogo de un deseo que hay de venir...'

Somente quando deixei el Caminito é que realmente fui entender o quê Mario Benedetti versa sobre o tango em A Borra do Café.

#música: Libertango (Astor Piazzolla)

(prometo escrever algo sobre don Guillermo e su arte.)

19 agosto 2007

Princípios Básicos II

Auto-ajuda:



Quando estiveres sozinho, perdido e olhar para o alto e ver que o brilho das estrelas, que antes lhe guiava, já não está mais lá...

se liga, já amanheceu.

09 agosto 2007

Exclusividades XI



Nem todo arguto é perspicaz; bons entrevistados são evasivos, por exemplo. Mas nem toda evasão é ardilosa; maus entrevistados são esquivos, por exemplo. É tudo uma questão de bons estratagemas.


Cena V - Empatia Primeira



Sentou-se no balanço daquele parque e embalou-se. Tinha oitenta e dois anos, trinta com seu cachecol. Um menininho, que por ali brincava, achou legal aquele velhinho num lugar onde, normalmente, vira crianças. Senta-se no balanço ao lado.
- O senhor também gosta de brincar?
- Não. Só do balanço.
- Eu tambem gosto do balanço. Minha mãe me empurra bem alto.
- Eu não tenho mãe.
- Claro que tem... todo mundo tem mãe!
- Mas eu não tenho mais. Ela já morreu. Aliás, todo mundo vai morrer. Você, eu, todo mundo um dia vai morrer..
- ...isso eu já sei. Meu pai brinca que um dia todos dormem pra sempre. - (senta-se no chão) - Mas meu pai nunca sabe responder para onde as pessoas vão depois que morrem... O senhor sabe?
- Não. Ninguém sabe... talvez para o mesmo lugar de onde viemos.
- E de onde a gente veio?
- Não lembro.


#música: Philip Glass - The Hours (soundtrack)

08 agosto 2007

"No real than you are"

Pegando a onda daqueles nórdicos que deixaram o Lego gigante no mar no resort de Zandvoort, na Holanda, segue a pergunta do dia:

O quê os quatro filmes abaixo têm em comum ?




.Capote (2005)
.O Exorcismo de Emily Rose (2005)
.O Pianista
(
2002)
.Uma Mente Brilhante (2001)


05 agosto 2007

Correção:



No filme Manhattan (1979), quando Isaac (Woody Allen) canta Tracy (Mariel Hemingway) no carro puxado por cavalo, no Central Park, dizendo que ela seria a resposta de Deus à Jó... isso só seria possível em um único caso: se Deus não soubesse da existência de Monica Bellucci.


Nuovo film:
Manuale D'Amore 2 (2007)
Direção:Giovanni Veronesi
.Carlo Verdone
.Monica Bellucci
.Riccardo Scamarcio

31 julho 2007

Baixas....

- Capitão, temos duas baixas nos altos comandos. Toni e Bergman, ambos do pelotão das Câmeras, senhor.
- Duas?! De uma só vez??
- Sim, senhor.
- Santo Deus! E dos melhores...! Diga soldado, algum palpite de perigo iminente?
- Senhor, há muitos com as botas gastas... Assim, de lembrança, zelo pelos Sargentos Scorsese, Eastwood, Godard ... ou ainda, pelo Sargento Benedetti, do pelotão das Letras... andam muito velhos, senhor..
- Longe de ti essa sinceridade soldado!! Olhe as nuvens carregadas... é mau pagode citar assim tantos nomes preciosos quando as bruxas estão soltas...




Ingmar Bergman (1918-2007)



Michelangelo Antonioni (1912-2007)

29 junho 2007

11 junho 2007

Segunda-Feira


"Segunda

O pior da segunda-feira é que a gente sempre chega atrasado. Meu Deus! como é que eu fui perder a primeria feira?"


(Da Preguiça Como Método de Trabalho- M.Quintana)